Tentar esquecer deve ser das
coisas mais difíceis do mundo.
Durante a nossa vida,
esquecemo-nos de tantas coisas. Coisas banais: como as chaves do carro, ou da
casa, o sítio onde deixámos aquele número apontado, que agora nos faz falta, de
uma ou outra data de aniversário. Esquecemo-nos de tudo, menos daquilo que nos
queremos esquecer. Obrigar a esquecer é um exercício que desafia a lógica.
Temos a mania sádica de guardar as mágoas. De repetir a angústia dos momentos
tristes, como se o botão de repetição estivesse encravado. De reviver os
momentos que um dia foram uma alegria imensa, mas que agora apenas se arrastam
por dentro como fantasmas dispostos a atormentar-nos de cada vez que as luzes se
apagam. O amor é um bicho do caraças. Quando amamos com as tripas de fora – a
única forma de amar que conheço - julgamos
que a nossa felicidade será, para sempre, à prova de bala. Mas até os amores à
prova de bala podem ser feridos mortalmente. Somos definidos pela nossa
fragilidade. As nossas relações acompanham-nos. Aqui, no campo de batalha, no
meio da lama, todos podemos cair: a perfeição serve apenas para nos obrigar a
olhar em frente. O que fica depois da queda, além da lama no rosto, são as
recordações, as memórias, as chagas. Tentar esquecer, deve ser das coisas mais
difíceis do mundo. Obrigar o coração a avançar é impossível: deve ser por isso
que ele bate por conta própria. Um dia partilhámos beijos, carne na carne,
palavras de amor, alma na alma, momentos, cidades, imagens, danças, sorrisos.
Como podemos obrigar-nos a esquecer quem amámos, quando aquilo que queremos
esquecer, é aquilo que os faz ficar? São estes paradoxos que nos desgastam por
dentro. São estas as cólicas que nos deixam a pensar: se o amor é uma máquina de
criar monstros, talvez o melhor seja amar de caçadeira na mão. E no entretanto
entre este pensamento e a próxima insónia, acabamos por esquecer tudo isto.
Caímos na armadilha e voltamos a dar de nós. Porque, apesar de tudo, o amor é
necessário. Um dia há-de ser de vez. Ninguém sai daqui vivo – li eu, um dia destes.
(Um sorriso, depois do ponto final.)
PedRodrigues