domingo, 15 de abril de 2012

O divórcio


Vinte e cinco anos de casados e agora isto. Depois há os miúdos: o mais novo, o Pedro, que vai para o ciclo este ano e ainda não tem idade para entender estas coisas. Que queres que lhe diga? Vais-te embora, de mala feita, cheio de esperança na algibeira e eu fico por aqui. Fico a limpar os cacos. Que queres que lhe diga? Explica-me. Que diabo tenho eu para lhe dizer, a não ser que o pai resolveu deixar-nos? Nem te dignaste a explicar-me fosse o que fosse. Andavas mudo. Tanto silêncio. Tanta estranheza. Evitavas-me pelos cantos da casa. Escondias-te no escritório. Perguntava-te

-Que se passa?

E tu nem ai nem ui. Nada. Olhavas para os candeeiros, para o chão, para as fotografias dos miúdos – nem para as nossas fotografias olhavas – olhavas para tudo, menos para mim. Na cama não me tocavas. Esperavas sempre que adormecesse e depois deitavas-te. É verdade. Não desvies o olhar. Faz-te homem. Olha para mim. Olha para mim e não me tomes por parva. Quantas vezes fingi estar a dormir e sentia-te a entrar nos lençóis a evitar-me, como se fosse um cão tinhoso, a suspirar como se estivesses a caminho do corredor da morte, como se estar na nossa casa fosse um inferno. Vinte e cinco anos, três filhos, dois carros, uma casa e tu abandonas tudo. Abandonas tudo como o cobarde que és: sem me olhar nos olhos. Partes sem uma explicação sequer, como se não fossemos dignos de partilhar o mesmo ar que tu. Nem pelos teus filhos tens respeito. O João que sempre te viu como um herói: acabou por seguir advocacia por tua causa. Os olhos brilhavam-lhe quando soube que tinha entrado no mesmo curso do pai. Nem uma palavra lhe deste. Porquê? Explica-me por favor que eu não compreendo. Ando aqui às voltas e não compreendo

-Não me pressiones

Nunca te pressionei. Nem um beliscão mais suave, nunca. Razões não me faltavam: noites a fio no escritório, viagens para aqui e para ali, cheiros estranhos entranhados nas tuas roupas. Mil e uma razões para te perguntar

-Que se passa?

Mas nunca o fiz. Sempre interiorizei a tua imagem de marido devoto e pai exemplar – ou vice-versa. Pensava para mim

-Está a trabalhar para nós. Para que possamos levar esta vida que levamos.

E era o mesmo que dizia ao Pedro e ao Diogo quando me perguntavam pelo pai.

-O pai está a trabalhar, a ganhar dinheiro para nós.

Eles sempre à espera que entrasses pela porta para lhes dares um beijo de boa noite ou leres uma história. Que lhes digo agora? Juro-te que não consigo dizer-lhes seja o que for. Tento ser forte por eles. Só por eles. Engulo as lágrimas, quase vomito com os nervos, mas aguento. Por eles. Só por eles. Não sei quanto tempo aguentarei. Vejo-os apavorados, a procurar-te pela casa, a olharem para mim numa curiosidade imensa à espera de uma resposta. Que lhes digo eu, meu Deus?

 - O vosso pai cansou-se de nós e foi embora. Abandonou-nos.

Achas que é isto que os teus filhos merecem? Diz-me. Queres que lhes diga que o pai não os ama o suficiente para se despedir? Achas que eles merecem sentir-se rejeitados, como se eles fossem o problema? E entretanto enquanto te explicas ao tribunal familiar levanta a cabeça e olha para mim. Não me deixes outra carta com justificações na cabeceira, que te dediquei quase três décadas da minha vida e mereço mais que um pedaço de papel manchado de tinta. Levanta a cabeça e olha-nos nos olhos, e se ainda tiveres um pingo de coragem responde-nos: como é que nos fartamos de quem nos ama?

PedRodrigues

(Crónica de edição de Julho da revista Algarve Mais)

2 comentários:

  1. Não há nada que te possa dizer que te console neste momento (falo por experiência própria). O amor entre um casal vai e vem conforme o tempo e a dedicação que se lhe aplica. Tal como existe amor à primeira vista, também existe o "desamor" num segundo... São coisas complicadas que vão para além da nossa compreensão.
    Aquilo que sei, e te posso garantir com toda a certeza, é que o amor pelos filhos é inesgotável. E isso vê-se bem no que escreves. O silêncio a que ele se votou serviu única e exclusivamente para vos proteger.
    Mas eu não sou ninguém para dizer estas coisas, com o tempo irás entender.

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  2. Bem sei do que falas. Cada um à sua maneira, passando ou não pela experiência, compadece-se com a situação. Eu não me compadeço. Nunca quis que o fizessem comigo. Não o faço com ninguém. Mas quero acreditar que compreendo. Escreve sempre. Mas sempre. Para nós é bom, a ti liberta-te. Assim o espero.

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