sexta-feira, 15 de março de 2013

Crónica desinspirada


É esta teimosia tua em aparecer quando não deves; esta vontade de me atormentares sem aviso prévio; este ressuscitar sem convite. É tudo isso que me faz ferver o sangue. Ando mais magro, nervoso e irritadiço. Quando julgo que te esqueci, apareces vinda sei lá de onde. Às vezes numa fotografia que andava perdida pelo computador, outras vezes nas atualizações das tuas amigas. Apareces sempre a sorrir – o habitual em ti. Apareces linda: de lábios vibrantes e iluminada por uma luz hipnotizante. Dou por mim a lamentar-me

-Já me esqueceu…

Fechado em copas a olhar-te à lupa. À procura de não sei muito bem o quê. Ao que parece já me esqueceste – e estás no teu direito. Há meses que não te vejo: desde que tudo terminou naquela tarde de Agosto. Minto: vi-te uma vez, à noite, em Setembro. Andavas no teu jeito habitual: a cambalear nas incertezas da calçada – e do destino. A vida tem o condão de separar aqueles que não têm força suficiente para seguirem juntos a sua corrente. Acho que nós não conseguimos fugir  à regra. Lutámos, sei que lutámos, mas acabámos por perecer. Sempre fomos uma espécie de bombas relógio, cada um à sua maneira. Não me lembro do momento exacto em que explodimos, mas o facto é que aqui estamos: estilhaçados, partidos, mutilados, cada um no seu canto.
Hoje, neste momento

-Sou apenas uma memória…

Apenas uma memória. Estranhamente não me importo se sou uma boa memória ou uma má memória. Sou uma memória, ponto final. Acho que é isso que me irrita. Irrita-me pensar que já não faço parte do teu dia a dia. Irrita-me pensar que as minhas fotografias, ao contrário das tuas, não teimam em aparecer do nada. Irrita-me este ligeiro egoísmo que sinto sempre que te imagino a partilhar os olhares, as carícias, as palavras com outra pessoa. Irrita-me tudo o que me leva a ti, porque, no final das contas, és um caminho sem saída. Uma estrada que vai dar a lugar nenhum. Irrita-me que depois de tudo o que passei ainda me faça confusão imaginar as tuas gargalhadas. Irrita-me que me irrites, isso sim. Até porque já chega de seres esse monstro no armário que teima em sair quando eu teimo em não adormecer. Já chega de seres o alerta amarelo e laranja e vermelho que me abala os nervos. Já chega.
E é talvez por sentir que já estou farto deste cabo das tormentas que começo a navegar para novos mares. Começo a redescobrir o caminho para a Índia do meu coração. A verdadeira Índia do meu coração. É talvez por isso que diga

-Estou apaixonado

Alto e em bom som, para que todo o meu corpo oiça. É talvez por isso que me encontro numa nova jornada. Uma jornada em que o amor é a única resposta. A única resposta. É este o lado poético da vida: a cada falsa partida, há uma nova oportunidade. Deve ser por isso que ainda vou sorrindo estupidamente. Talvez um dia a memória sejas tu. Acho que hoje a memória és mesmo tu.

(Deixa-me gritar bem alto
-Estou apaixonado!)

PedRodrigues

6 comentários:

  1. Parabéns Pedro! Está tão mas tão fantástico!

    ResponderEliminar
  2. Parabéns Pedro por mais um texto, por mais palavras, por mais emoções, por mais sentimentos. Obrigada por me fazeres crescer a cada frase que escreves. Obrigada. Não é um agradecimento lançado como quem diz "amo-te" nos dias atuais, é um agradecimento do fundo do meu coração. Porque tudo o que fazes, vem do fundo do teu. Obrigada.
    Obrigada.
    Obrigada.
    (Obrigada).
    Continua a escrever, mais e mais.
    Todos os dias venho ao teu blog na esperança de mais um texto. Obrigada.

    ResponderEliminar
  3. Parabéns mais uma vez! Gostei muito. Incrivel a forma como nos consegues transmitir todos estes sentimentos.

    ResponderEliminar
  4. Pedro, leio teus textos como quem busca um alento. Quem é poeta sabe e sente o coração do outro. Admiro tua escrita, e por muitos dias e noites, debruço nela meus pensamentos sem rumo. Como andorinha que sobrevoa o mar, fico a buscar nas tuas palavras aquilo que gostaria de ter escrito, eu mesma.

    ResponderEliminar