sábado, 13 de outubro de 2018

O velho Casio do meu avô: dois anos depois

Olho para o teu velho Casio, agora enrolado no meu pulso: 11:01, menos cinco minutos que a hora marcada pelos outros relógios da casa. A manhã está bonita, com sol e um céu azul baço de nuvens. Tenho a janela aberta e um brisa leve levanta algumas folhas da minha secretária. À minha frente tenho uma fotografia tua em que pareces um artista daqueles de cinema dos anos 60: rosto bem delineado, cabelo grisalho penteado para trás, moreno dos dias passados no mar e no rio. Faz amanhã dois anos que partiste e faz hoje dois anos que te apertei a mão pela última vez. Ardias de febre porque, segundo os médicos, os teus órgãos começavam a desligar um a um, como as luzes da casa antes de irmos dormir. Entre choros e silêncios todos me diziam que tinhas esperado por mim para me despedir de ti. Dei-te imensos beijos. Apertei-te. Pedi para não ires. Mas acabaste por embarcar nessa viagem de onde não me têm chegado cartas. Agora chego de Lisboa e o teu lugar no sofá está desabitado, o teu lugar na mesa foi ocupado pelo pai e eu fui movido, por uma estranha força de mudança para a outra ponta, afastado dos lugares onde tantas vezes me mandavas estar quieto por te estar a fazer judiarias, onde tantas vezes sorrimos, onde tantas vezes te bati nas costas com medo que te estivesses a engasgar, onde tantas vezes te abracei, beijei, te disse “meu amigo”, “meu velhinho”. Comecei a chorar, como se tivesse guardado uma enorme tempestade cá dentro, daquelas que teimam em anunciar nos noticiários e de um momento para o outro tudo se torna água, tudo se dissolve, tudo abana e remexe. Olho novamente o relógio, amolgado e arranhado das quedas que davas - a última fatal: a última. Recordo a primeira vez que te caiu porque não o conseguias prender no pulso e todas as vezes em que depois dessa te voltei a explicar que era preciso ouvir o clique do fecho para saber que estava preso e que sem esse clique ele voltaria a cair, e tantas outras vezes, depois dessas vezes, te voltei a explicar, apanhando o pobre objecto do chão: “tens de ouvir o clique”. Agora vejo, nada disso importou, o tempo dentro do relógio engoliu-te e o que me sobrou foi esta peça prateada que desde a tua morte trago no meu pulso para contar as horas. Ao contrário de ti, que tinhas uma relação de paz com a pontualidade, eu tenho o tempo desfasado da realidade, atrasado. Se fosses vivo, certamente já teria acertado as coisas e viveria no mesmo fuso horário que tu. Agora, pouco interessa. Ainda hoje irei enfeitar o sítio onde agora o teu corpo descansa - junto do da avó Lucinda. Limparei, com a mãe, as pedras; encherei as jarras de flores vibrantes. Escrevi há uns tempos que a morte tem um sentido poético, num sítio qualquer. Talvez seja verdade. Sempre que olho para a tua imagem, as cores garridas na campa, o cheiro a flores frescas no cemitério, dou por mim a pensar que a morte se parece muito com a primavera. E de novo chove cá dentro, porque a minha primavera não mais será a tua. O canto das andorinhas terá horas diferentes, como as do teu velho Casio. Mas no que depender de mim será sempre essa estação dos recomeços: aqui, e onde quer que estejas. 
Olho novamente a tua imagem e dentro da minha cabeça, sem querer, eu abraço-te.



Pedro Rodrigues

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