domingo, 18 de dezembro de 2011

Cinco minutos

Se há coisa que me assusta é a morte. Não a minha. Assusta-me a morte daqueles que amo. São poucos. Se quisesse, aposto que os conseguiria contar pelos dedos. Estes mesmos dedos que tremem de cada vez que penso nisso: folhas outonais a tremelicar com o vento. Enquanto vou escrevendo esta crónica, o meu avô vai dormindo no sofá ao lado. É por ele que os meus dedos vão tremendo – cada vez mais. A morte da minha avó deixou em todos nós um enorme vazio. Deixou o meu avô a viver pela metade. Todos os dias ele vai morrendo mais um bocadinho. E todos os dias eu vou pedindo que a morte me dê mais cinco minutos com ele.
Acredito que as pessoas não vejam, que digam que ele está com o aspecto de um jovem, mas eu sei que ele vai morrendo por dentro, todos os dias. De cada vez que acabo um abraço, já sinto saudades dele. De cada vez que acaba um aperto de mão, já sinto saudades dele. De cada vez que lhe digo até amanhã, a saudade mata-me um bocadinho. Um ácido em forma de adeus, com vontade que seja um até já. Sempre foi um até já. Nem sempre será um até já. Um dia os cinco minutos acabarão e o meu corpo irá congelar novamente. Ainda me lembro do dia em que a avó morreu. Todos nos lembramos do dia em que a avó morreu. Há metades que não partem, memórias que nos vão prendendo as metades ao mundo. A metade da avó continua viva. Uma chama miudinha no nosso corpo a arder num vazio que um dia será só mais um vazio. Quem ama, ama com o coração de fora. Deixa esse vazio no peito para guardar as metades de quem ama. É assim que se ama. E é assim que eu amo o meu avô. Apesar da teimosia crescente com a demência da idade, do feitio vincado por uma vida de sacrifício, da mentalidade estagnada no tempo: amo-o de uma forma incondicional e inexplicável. Guardo cada momento numa eternidade que sei não nos pertencer. Guardo-o num sítio onde o tempo não é tempo. Onde nada é para sempre, mas vai sendo. Guardo-o no mesmo sítio onde guardo a avó. Olho-o sempre com a mesma atenção: à lupa. Decoro cada ruga, cada calosidade, cada pêlo, cada fio de cabelo. Se fechar os olhos nesse instante vejo-o da mesma forma. Abraço-o sempre da mesma forma, com toda intensidade: até que a minha pele já não é a minha pele: uma ponte que nos liga. Sinto na minha espinha os arrepios dele. Sinto nos meus dedos as chagas de uma vida. Sinto nos meus olhos as lágrimas que ele chorou no dia em que a avó partiu. Então choro com ele. A minha pele na pele dele e eu choro. As minhas mãos nas mãos dele e eu choro. O meu coração a bater por ele e eu choro.
Sei que hoje, enquanto dorme no sofá, ele é um avô orgulhoso. Quero dar-lhe uma última alegria. Só uma última alegria. Um dia ele partirá e eu ficarei a viver pela metade. A morrer todos os dias mais um bocadinho - um bocadinho maior todos os dias. Até que um dia vão olhar para mim e vou ser apenas um farrapo – com bom aspecto - a ser levado pelo vento. Enquanto ele me olha do sofá, eu vou sentindo saudades dele. Uma lágrima desdenhosa vai-me caindo dos olhos. Enquanto a limpo vou pedindo que a morte me dê só mais cinco minutos com as pessoas que amo.

PedRodrigues

5 comentários:

  1. Este texto é muito, muito especial. Partilho o que sentes. Aproveita os minutos com o teu avô... quando eles partem dói tanto. É tão mau pensar que posso descer a rua, ir ter com eles e, afinal, ver apenas uma casa vazia. Obrigada, gosto de te ler :)

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  2. Este texto, tal como os outros, transborda sentimento, desde a primeira palavra até ao último sinal de pontuação. Escreves de uma forma incrivelmente bonita e sincera. Adorei, como sempre.

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  3. Emocionante. Até agora, nenhum texto me tinha deixado lágrimas nos olhos. Mas este deixou.

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  4. Parabéns Pedro! Descobri à pouco a existência do seu blog e estou simplesmente maravilhada! Escreve com todo o sentimento que transporta... Amo cada texto que leio, cada um mais que o outro. Continue por favor

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