sexta-feira, 20 de julho de 2012

A carta


Fiquem sabendo que não me cultivei num jardim de utopias. Que não nasci de braço dado com o melhor, nem de costas voltadas para o que pode eventualmente correr mal. Há dias em que me perco dentro de mim, num labirinto. Procuro-me no meio das incertezas e indecisões. Cresci a pensar um dia vir a ser alguém e hoje que sou crescido acabo por entender que ser alguém não é assim tão difícil. Somos sempre alguém no mundo de alguém. A beleza das coisas está na simplicidade do possível. A verdadeira beleza das coisas está na facilidade do impossível se tornar possível. Um dia amei de corpo inteiro e alma inteira todas as mulheres do mundo. Continuo a amá-las. Todos me diziam ser impossível amar todas as mulheres do mundo. Que não as podia amar a todas por nunca as conhecer a todas. Mas as coisas não funcionam assim. Amamos uma vez na vida, uma mulher na vida e aprendemos como se amam todas as mulheres. Amamos um bilião de vezes a mesma mulher e todas as mulheres do mundo se resumem a uma mulher no nosso mundo. Calei-me várias vezes por não querer dar voz aos meus instintos. Tantas vezes tive medo. Tantas vezes me acobardei. Que seria de mim se não tivesse abafado aquilo que poderia ser? Quem estaria no meu lugar neste momento? Trepei pela árvore da vida, sempre com receio de olhar em frente. Preocupei-me sempre com o que ficava para trás. Andar para a frente é um desafio. Andar para a frente sem olhar para trás é o maior dos desafios. Agradeço todos os dias ter encontrado um grande amor no meio de todo este caos. Agradeço pelos filhos que me deu, pelo amor que me deu, pela felicidade de a ter ao meu lado de mão dada a sorrir. Sei que amanhã poderei não estar cá. O médico foi claro em relação à operação e estes setenta anos acabam por pesar uma tonelada nesta linha ténue que me separa da morte. Fiquem sabendo que não me cultivei em lado algum. Fui crescendo à socapa e fui regado pelo vosso amor. Entendam que não quero que me chorem. Há dias em que ainda me perco em mim mesmo a pensar em vocês. Podemos não ser eternos, mas vivemos devagarinho de relógio quase parado nos corações uns dos outros. Há uma fórmula mágica para a felicidade: o amor verdadeiro. Há um paraíso de sorrisos onde vivemos até ao final dos tempos. E onde podemos ser eternos, se nos deixarmos ser eternos. Amo-vos a todos. Até amanhã, seja o amanhã quando for.

PedRodrigues

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