terça-feira, 7 de agosto de 2012

Crónica com corações desenhados


Desenha um coração no papel. Desenha-o inteiro e sem pontas soltas. Desenha-o a olhar para mim, ou com o meu nome lá no meio. Se não souberes desenhar eu ensino-te. Dá-me a tua mão. Deixa-me guiar-te com a minha. Deixa-me poisar o queixo no teu ombro. Juro que não te faço cócegas com a barba

-Estás a arrepiar-me

Juro que não respiro contra o teu pescoço. Não sorrias assim que me desconcentras. Olha o coração a formar-se no papel. Não tenhas medo que eu não largo a tua mão. Desenhamo-lo juntos. Desenhamo-lo até ao fim, que os corações só são corações quando estão inteiros. Desenha-nos a nós de mão dada por baixo do coração. Olha para mim de mansinho que eu ajudo-te a pintar o coração. De que cor queres pintar o coração? De que cor é o teu coração?

-Não sei

Pinta-o com o amarelo do sol. Pinta-o a brilhar para nós. Pinta-o com o azul do céu. Pinta-o infinito como nós. Pinta-o com o verde das folhas, ou o castanho das raízes. Pinta-o com todas as cores. Pinta-o como se fosse feito de tudo e não se partisse com nada. Pinta-o como se confiasses cegamente em mim

-Confias em mim?

Olha a minha mão sobre a tua e um coração no papel. Agora desenha-o no meu peito. Podes usar o teu batom vermelho. Desenha-o inteiro, desenha-o infinito, desenha-o a brilhar. Eu confio em ti. Não o deixes a meio. Podes fazer-me cócegas com o cabelo, podes beijar-me a boca e o pescoço e os ombros, mas não pares. Continua a desenhar o coração até ficar inteiro. Não o deixes com pontas soltas. Não te distraias com nada - eu sei que é difícil. Segue o rumo das linhas como te ensinei. Desenha o meu coração e não o estragues. Faz como eu te ensinei: primeiro a minha metade, depois a tua, primeiro a tua metade, depois a minha. Faz como entenderes, mas não o deixes incompleto. Guarda bem o meu coração e confia em mim. Juro que não te engano

-Desconfio de tudo, até mesmo dos corações.

Confia em mim, como eu confio em ti. Continua a pintar-me um coração no peito. Pinta-o como entenderes que eu não quero saber. Quero apenas que fique inteiro. Acredita que confio em ti para guardares o meu coração. E se me permitires acabo esse coração que está pintado a meio no teu peito. Não tenhas medo que eu não o deixo ficar assim. Deixa-me pintá-lo com todas as cores: como se fosse feito de tudo e não se partisse com nada. Quem deixa os corações a meio não merece o coração de ninguém. Acredita nisto que é verdade. Não tenhas medo que eu sei o que estou a fazer

-Não sei se devo confiar em ti. Tu acreditas em tudo.

Não acredito em tudo. Acredito em corações perfeitos. Acredito em amores perfeitos.

-Acreditas em tudo.

E se eu desconfiar de tudo, já acreditas em mim?

PedRodrigues

2 comentários:

  1. Engraçado a maneira bem sequenciada como está cada parágrafo, como se a cada um que passa fosse um passo. E cada vez, não só no desenho, dois corações se juntam. Abraço

    ResponderEliminar
  2. Corações inteiros. Confiança. Gostei muito mesmo. :)

    ResponderEliminar