segunda-feira, 6 de maio de 2013

Amanhã escrevo-te outro poema, meu amor


A vida tem o condão de seguir sem nos pedir licença. Uma das coisas que aprendi nestes oitenta e dois anos é que a vida, ao contrário dos homens, não se importa com quem vai ou com quem fica. Hoje sou aquilo que restou do homem que um dia fui. Hoje os joelhos não me permitem ser o mesmo maratonista de outros tempos. O coração não me deixa viver na adrenalina dos meus vinte anos. A minha cabeça teima em confundir os aniversários dos meus netos. Hoje o meu corpo é o meu maior inimigo.
Faz este ano sete anos que o amor da minha vida partiu. Deixou-me aqui, a cair aos bocados, sozinho. Dei por mim a procurar novas alegrias. Vi bisnetos que ela não viu. Vi casamentos que ela não viu. Vi tantas coisas que ela gostaria de ter visto e não viu. Como sinto saudades dela. Como sinto saudades daquela mulher que julgava ser eterna. Nunca dei o devido valor à felicidade que era tê-la ao meu lado. Hoje a vida segue sem ela. Eu sigo sem ela e sinto um aperto no peito de cada vez que penso nela. Aprendi da pior maneira que devemos agarrar-nos com unhas e dentes a cada segundo que passa. Que a felicidade não é um dado adquirido. Um dia aquilo que temos pode passar a ser aquilo que tivemos. A vida tem mania de tornar o presente no passado. E o futuro, aquela coisa que parece estar tão distante, às vezes torna-se no presente sem darmos conta.
Hoje, à medida que o calor do sol se mistura com o calor do sangue que corre nas minhas  veias, sonho acordado com os momentos partilhados de outrora. Deixo-lhe num papel um poema

Talvez não saibas
Mas eu sei
Que a vida sem ti
Não faz sentido
E o que havia para ser vivido
Já lá vai
Serei para sempre teu
Porque não sei ser
De outra forma

Um dia disseram-me que é suposto os poemas rimarem. Que a poesia sem rimas não faz sentido. Mas a verdade é que já nada nesta vida faz sentido. Sem ela era capaz de jurar que os rios não correm para o mar; que temos o céu por baixo dos pés e a terra sobre as nossas cabeças. Era capaz de jurar que, sem ela, a vida é uma morte lenta. Amanhã – se cá estiver - escrevo-lhe outro poema.

Amanhã escrevo-te outro poema, meu amor.

(Escreveu ele, no papel.)

PedRodrigues

(Texto escrito para a edição de Maio da revista Algarve Mais)

3 comentários:

  1. estou viciada na sua escrita, nos sentimentos traduzidos quando leio cada palavra :) espetacular!*

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  2. Deixou-me sem palavras e com um grande dó no peito, como me fez recordar tudo o que já passou na minha vida e que temos que aprender a saber aproveitar tudo o que a vida nos dá ao máximo, porque como há uns tempos me disseram em jeito de sussuro 'faz acontecer, aproveita a vida ao máximo e principalmente sê feliz e faz feliz, faz com que a tua vida valha a pena' e assim tem que ser...

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  3. A sua escrita tocou-me... As emoções penetram meu coração, e deixam-me a sentir essa dor... Verdadeiramente espetacular...

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