sexta-feira, 14 de junho de 2013

Jantar para dois


Às vezes pergunto-me se alguma vez gostaste de mim. Pergunto-me todos os dias, ora essa. Pergunto-me e respondo-me e no final acabo sempre com a mesma sensação: um vazio imenso. Na verdade não sei gostaste, realmente. Se há alturas em que penso que sim, há outras em que julgo que me enganaste e fizeste de mim parva. Ando sempre nesta corda bamba, sem saber para que lado vou pender. Gosto de pensar que somos felizes. Gosto de imaginar o brilho dos teus olhos ao contares-me todos os teus planos para seres o melhor de todos, o grande, o inigualável. Para mim sempre foste o pináculo da perfeição. Conquistaste-me com as tuas falinhas mansas, com as tuas manhas de artista do sensível, com o teu ar de sonhador incansável. Eras, e és, o único que me fazia sonhar que podia chegar mais longe. Julgava poder acompanhar-te nessa tua jornada, mas a meio compreendi que era impossível seguir-te cegamente sem perder um pouco de mim. Hoje estás cada vez mais perto daquilo que sonhaste. Hoje tens milhares de seguidores que te acompanham e te lêem e que julgam conhecer-te. Mas tu sabes, como eu sei, que nenhum deles te conhece como eu conheço. E eu que julgo conhecer-te tão bem, não consigo entender se algum dia gostaste verdadeiramente de mim. Tento encaixar-te em cada palavra. Tento tornar-te nas personagens que escreves. Tento que sejas aquilo que quero que sejas. Nunca és, mas eu não deixo de tentar. É este meu masoquismo que me vai dilacerando lentamente. Esta vontade de te descobrir e de querer que me descubras. Quem estou eu a enganar? Tu já me descobriste. Tens esse dom assustador de ler as pessoas nas entrelinhas. Vais-te apoderando delas, vais crescendo nelas até que, a certa altura, é impossível remover-te sem que faças estragos permanentes. Pergunto-me tantas vezes se alguma vez gostaste, realmente, de mim. Pergunto-me, mas tenho medo de te perguntar. Tenho medo que me digas que não e que parte de mim desabe no processo. Talvez por isso te tenha feito o jantar e espere por ti enquanto vou olhando para o vazio do teu lugar. Talvez por isso imagine o teu sorriso do outro lado, a cumprimentar-me como eu mereço. Sou uma parva, eu sei. Lá no fundo eu sei que gostas de mim e que sou eu aquela que escreves nos teus textos. Espero que um dia me dediques um dos teus livros. Eu espero. Por ti, eu espero. Apesar de não te compreender na tua plenitude, tu voltas sempre para mim. Tu olhas-me sempre com aquele teu ar tão estranho e ao mesmo tempo tão adorável. Um dia seremos apenas eu e tu nos teus livros. Um livro para nós. Até podes escrever sobre este jantar que hoje te fiz, desde que no final fiquemos apenas os dois: felizes para sempre.

 

PedRodrigues

2 comentários:

  1. Simplesmente maravilhos ! A expressão perfeita dos sentimentos que tantos trazemos guardados.. Parabéns :)

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  2. Arrepiante, completamente! A tua escrita é emocionante, Obrigada por transpareceres o que parece indescritível (o sentimento). És, sem qualquer tipo de duvida uma fonte de inspiração. Mais uma vez obrigada por partilhares o teu talento.
    Já Li e reli "Eu hei-de amar uma puta" e está absolutamente incrível. Parabéns!

    Rita S.

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