quarta-feira, 26 de março de 2014

In memoriam

E no final das contas descalcei-me e deixei que a areia se misturasse com os meus dedos. Avancei, sem medo, até onde as ondas partiam. A água gelava-me os ossos. Naquele momento pensei “se me deixar ir, acabou-se”. Mergulhei e deixei que a água salgada diluísse os meus pensamentos. Parei de respirar por instantes. Fiquei suspenso numa espécie de duelo de memórias. Em todas elas assombravas-me. Perseguias-me através do tempo. Não me deixavas partir. Bastava que me largasses a mão. “Larga-me a mão”, pensava. Mas tu não largavas. Não por teimosia. Nunca por teimosia. Não estavas preparada, só isso. Eu ali, no meio daquele mar, tão imenso, tão gelado. “Deixa-me ir” implorava-te. Tu não deixavas. Querias que ficasse. Nem que fosse apenas por um segundo. Querias que ficasse e te dissesse que tudo estava bem. Não estava. Na imensidão do mar percebi a minha pequenez. Nas mãos daquele gigante líquido eu era apenas uma migalha. Percebi a minha pequenez. “Deixa-me ir”, mas tu não deixavas. Para ti não era apenas uma migalha. Era mais que isso. Plantaste em mim o teu mundo e viste-o crescer nos meus olhos. Também tu foste o meu mundo. Continuas a ser o meu mundo. Conheço todos os meridianos do teu corpo. Plantei em ti o meu mundo e vi-o crescer nos teus olhos. E assim sendo, eu fico e não vou. Fico por ti. Porque te amo. Porque te preciso. Eu fico e não vou. Deixa-me só sair daqui. Deixa-me só regressar. Não me deixo ir. Busquei um pouco de ar. Nadei até terra e deitei-me de barriga para cima, na areia. O meu corpo estava gelado e não estavas lá para me aquecer. Agarrei-me ao que restava de ti, às memórias de ti, e levantei-me. Olhei o céu uma última vez à tua procura. “Se me tivesse deixado ir, acabava-se”, mas tu não me deixaste ir. Querias que ficasse. Por isso fiquei. Por ti fiquei. Porque apesar de ter perdido o meu mundo, não permito que percas o teu.


PedRodrigues

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