segunda-feira, 3 de abril de 2017

Momento certo

Perguntava-lhe pelo momento certo.
Ela pedia-me que adivinhasse, como quem adivinha o som do mar dentro de búzios antigos. Mas eu nunca acreditei em momentos exactos, com horas exactas. Nunca acreditei haver um momento certo do amor; um momento certo de um beijo; um momento certo para prolongar os meus braços até outro corpo que os receba.
[Ela talvez soubesse]
Sempre acreditei na inevitabilidade das coisas; nos movimentos aleatórios de tudo em minha volta. 
Há partículas condenadas a colidirem. Talvez. Nunca me prendi à linearidade com que se tenta explicar a vida. Os significados inventados para justificar as acções. As abstractas certezas de tudo o que acontece. Nunca acreditei. 
Acredito, porém, nos tons garridos das buganvílias em flor, no despertar azul dos jacarandás, no cheiro doce dos antigos pessegueiros dos quintais da minha infância. Em tudo isso eu acredito: na inevitabilidade das coisas, e no destino que teima em fazer-nos colidir uns nos outros, transformando-nos neste momento: presente, e infinitamente possível. 


PedRodrigues

1 comentário:

  1. as mulheres sabem tudo.! É o sexto sentido apurado que nos faz ver além da distância
    Kis :=}

    ResponderEliminar