sábado, 21 de maio de 2011

Breve introdução à amizade

Vivemos presos nesta selva urbana. Pobres que somos, andamos perdidos. Uns conduzem melhores carros, têm melhores casas, têm mulheres mais bonitas; essas mulheres mais bonitas têm melhores peles – cortesia dos produtos de beleza que os maridos podem pagar e dos milagres da cirurgia plástica – têm roupas mais caras e jóias que são o sonho de qualquer princesa de faz-de-conta. No entanto, todos os reis têm subordinados, nenhum tem amigos.
As amizades são o equivalente social da equação perfeita. Nesta selva urbana vivemos todos unidos numa floresta de fios. No final de cada fio só vejo conchas vazias. As amizades estão desniveladas. As equações têm soluções impossíveis. Ninguém é feliz com a felicidade dos outros. Todos queremos mais. A ganância e o egoísmo tornaram-se nos eucaliptos desta floresta, secando as amizades à sua volta. Tenho pena.
Todos os dias procuro pelo final dos fios que me unem às pessoas. Todas me surpreendem. Aliás, uma das minhas maiores felicidades é o espanto e a dúvida que tenho sobre todas. As pessoas não nos surpreendem com as mentiras que nos contam, surpreendem-nos com as verdades que descobrimos sobre elas. É assim que vejo a sociedade: um areal de mentiras, que eventualmente são afogadas num mar de verdades. Todos os dias procuro uma gota desse mar no final de cada fio. Todos os dias encontro o equivalente a uma pequena poça. Sorrio.
Nunca quis ser rei. Gosto demasiado de partilhar o pão à mesa e de brindar com os meus amigos. Gosto de ser aplaudido, mas não nasci para ser bajulado. Gosto de fazer a minha parte na equação. Gosto de ser a verdade no final no fio. Gosto de estar lá quando é preciso. De ser marinheiro na tempestade e de ser o primeiro a festejar na bonança. Um dia ouvi, numa entrevista ao António Lobo Antunes, a seguinte frase:
“As pessoas são como os arco-íris: nós nunca nos entendemos nas sete cores”
Ainda hoje essa frase me vem à cabeça com regularidade. Nem sempre nos entendemos nas sete cores, mas se nos entendermos em três ou quatro já é muito bom. As amizades são isso mesmo: concordar, mesmo quando discordamos. Saber viver com as diferenças. Equilibrar a equação para que o resultado desta seja possível.
Nesta floresta de fios e conchas vazias, uma das minhas maiores alegrias é saber que, no final de alguns fios, há oceanos de verdades. Que, se um dia cair, alguém me ajudará a levantar. Quanto a todos os outros: espero que um dia não se percam no próprio vazio. Nem só de dinheiro, carros e mulheres bonitas vive o mundo. As amizades são o equivalente social da equação perfeita, não queiram ser melhores que a sua solução.

PedRodrigues

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