sábado, 11 de junho de 2011

"Mea culpa" não é "desculpa"

Sou a pior pessoa do mundo. Penso para mim todos os dias que sou a pior pessoa do mundo. O meu avô sempre me disse:
“É a ruindade que não te deixa crescer”
Eu acredito. A velhice é sinónimo de sabedoria – em minha casa a hierarquia dos cabelos brancos prevalece. Raramente se engana, o meu avô. Embora por vezes diga as coisas duma forma arcaica, sem travões e no seu jeito bruto. Não o encaro como defeito, mas como feitio. A vida não foi fácil para ele: desde muito novo teve de trabalhar; passou tormentos na pesca do bacalhau; já foi operado várias vezes – o corpo não é de ferro; e há alguns anos perdeu a minha avó. A vida deu-lhe o direito de ser como é. Não sou ninguém para o criticar.
Acho – tenho a certeza – que herdei a ruindade do sangue dele. Acredito que tenho um bom coração, que sou bem-intencionado, mas também acredito no velho cliché: “de boas intenções está o Inferno cheio”. As minhas atitudes falam por si. Não preciso de justificações. Acredito no poder de interpretação das pessoas. Acredito, porém, que não raras vezes se enganam a julgar as atitudes alheias.
Ao contrário do meu avô, a vida nunca me deu uma chapada. Sempre me estendeu a mão. Sempre tive tudo o que pedi. Mais que aquilo que mereço – não é falsa modéstia, é verdade. Já vi a morte de perto duas vezes. Tive medo, mas a vida estendeu-me a mão. Há quem não tenha tal sorte. A vida não me deu o direito de ser como sou, eu escolhi ser assim. Todas as escolhas têm um preço. As maleitas a que estou por vezes sujeito são resultado das minhas más decisões, do meu mau julgamento e do meu feitio de leão. É a terceira lei de Newton a conspirar contra mim.
Não estou a escrever este texto com o intuito de me desculpar a todos aqueles que por vezes só me querem bem; a todas aquelas que só pedem um pingo do meu amor; – que eu não consigo dispensar – a todas as que usei num momento e ignorei no outro; a todos aqueles que me querem tirar da minha teimosia… Não vos estou a escrever um pedido de desculpas. Não tenho esse direito. Sou um turbilhão de complicações e bipolaridade. Acabo sempre por atrair confusões e arrastar as pessoas para o meio delas. Não tenho culpa, nasci assim. Como disse: não vou pedir que me desculpem, não tenho esse direito e não sou pessoa de andar a mendigar pelo perdão alheio. Este texto é uma explicação: de quem sou, como sou e o que faço.
Hoje a vida estendeu-me a mão duas vezes. Hoje tenho tudo. Hoje posso sorrir, sem esconder o que quer que seja atrás dos dentes. Hoje não tenho o direito de pedir desculpa – nem vontade de o fazer. Hoje, este momento é meu. Amanhã nada me pertence – ainda? Ninguém é para sempre. O problema é mesmo esse: eu também sangro.

PedRodrigues

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