sábado, 13 de dezembro de 2014

Breve reflexão sobre a puta da morte

Ao Pedro e à Patrícia

Ninguém sabe o momento certo. O segundo exacto em que a última molécula de oxigénio é respirada. Num segundo ainda cá estamos, no outro, já não. Há uma linha ténue que separa estas duas condições. Uma margem temporal imperceptível.  Num segundo, uma mãe segura o filho nos seus braços, ainda vivo; no outro, tem-no morto, nos braços. O que existe depois é a revolta. A dor. O vazio. O espaço que fica por dentro e que nada parece ser capaz de preencher. Diz-se que o tempo passa e tudo cura. Mas as marcas acabam por ficar connosco para sempre. O vazio pode diminuir, mas não deixa de ser vazio. Agora não há risos, nem brincadeiras, nem gargalhadas. Agora não há palavras de revolta, nem guerras, nem birras. Não somos estrelas no céu porque foi-nos dado um lugar na terra. Um propósito mundano. Somos feitos da mesma matéria: cada um no seu espaço. Os mortos não nos olham de cima. Depois daquele segundo resta apenas uma ausência cega – talvez por isso nos fechem os olhos. A morte é a diferença entre a alegria e a tristeza. A companhia e a solidão. Quando morre alguém que amamos, parte de nós morre com essa pessoa. Fica a saudade. E a saudade é um infinito muito grande no peito:  nada o preenche.

Puta que pariu a morte!


PedRodrigues

1 comentário:

  1. Um texto que não merece comentários, mas sim elogios, pela forma real e directa como aborda a puta da morte. Só queria ter a capacidade de a descrever com tanta realidade

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