sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Aos snobs


Não sou destas coisas. Gosto pouco de tratar como diamante os pedaços de vidro que me tentam cortar. Mas achei pertinente. Talvez por estar cansado de lidar com Sábios do Sião, que se acham demasiado acima de todos os outros, a olharem do alto das suas torres de marfim, enquanto bebericam o seu cálice de vinho quente. Os snobs quase-alternativos que se acham tão distantes de tudo. Sempre sabedores da mais profunda cultura, à qual só eles chegam. Os fãs incondicionais de tudo o que é menos conhecido, tudo o que foge às massas. Os tais redondos em formas quadradas, ou vice-versa. Que recitam a poesia dos autores mais indigentes, perdida pela internet, e passam a imagem de conseguirem falar horas sobre a literatura russa do século dezanove, ou os grandes pensadores franceses, escondendo no seu íntimo o facto de que a última obra mais extensa que leram foi a bula do psicotrópico tomado antes de um concerto qualquer, numa garagem qualquer, fora do alcance dos restantes mortais. São esses os mesmos snobs que usam as redes sociais – e talvez entre aqui a maior de todas as ironias – para criticar tudo o que julgam chocar com a sua cultura refinada. O meu único desconsolo, no meio de todo este aparato, é que essas mesmas criaturas místicas ainda não se tenham apercebido de uma estranha coincidência: respirar é algo demasiadamente mainstream. Quando é que começam um concurso de apneia?



PedRodrigues

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