sábado, 26 de março de 2016

Às mulheres que terminam livros


Tinhas-me como um dado adquirido. Achavas que estaria sempre no mesmo lugar, como uma fotografia gasta, perdida pelas estantes. Achavas que as horas do meu relógio seriam para sempre tuas e que a minha pele teria para sempre o teu nome. Não. Prezo demasiado a minha liberdade. Ensinaste-me teoremas e novas medidas. Que o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos. Mas eu nunca fui mulher de triângulos: amo em linha recta. Ao contrário de ti. Agradeço-te por me teres oferecido o almanaque do desapego, com todas as instruções para desligar esta bomba relógio que é a solidão de amar alguém que não nos ama de volta. Na banda sonora da nossa despedida não há músicas repetidas. O teu cheiro não dura para sempre – infelizmente para ti. Tinhas-me como garantida, mas a vida prega partidas. Aprendi a vencer jogos viciados. Arranjei uma caixa de guardar passados. Desculpa, meu amor, mas está na altura de fechar a tampa.
PedRodrigues

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