sábado, 13 de agosto de 2011

A ciência do primeiro beijo

Beijo: toque de lábios em pessoa ou coisa. Só?
Lá me vai ficando a dúvida na cabeça, enquanto me vou deitando na cama, a pensar no escuro, dia após dia. Vou-me tentando lembrar de cada um. Visto que, cada beijo é um beijo: nunca igual, nunca parecido, nunca suficiente. Vou tentando encontrar a ciência de cada carícia na boca de cada mulher. Vou-me questionando como será o próximo. Nunca igual. Nunca parecido. Nunca suficiente.
E se um beijo durasse uma vida? Seria suficiente? Talvez. A dúvida na cabeça. O meu primeiro beijo perdido nas páginas de um livro qualquer, guardado numa estante qualquer, num recanto qualquer da minha cabeça. Alguém se lembra do primeiro beijo? Eu gostava de conseguir-me lembrar. Lembro-me de outros beijos - numa idade mais madura, quase a cair de verde. Não gostava da rapariga, mas conseguiu-me cativar. Quem consegue dizer "não" a um par de lábios que teima em dizer "sim"? Puxou-me para um canto e beijou-me. Tenho para mim que não fui eu que a beijei. Mas lá fechei os olhos e deixei-me envolver. Não é isso que fazemos quando fechamos os olhos durante o beijo? Deixarmo-nos envolver. Apagar o mundo.

- Eu e tu, mais ninguém

Naquele momento o tempo é nosso, de mais ninguém. Um motim na avenida, um paraíso naquele metro quadrado de área. Fico-me a imaginar naquele momento. Naquele beijo que foi só um beijo. Embora um beijo nunca seja apenas um beijo: seja poesia em forma de toque. Lábio no lábio. Pele com pele. A respiração que se mistura e o sangue que corre cada vez mais veloz. Poesia - digo eu. Perdido no escuro a lembrar-me de outros beijos. Da mão nos caracóis loiros e os lábios carnudos. Não estará a ciência do beijo na química entre as pessoas?

- Beijas bem

(Tu beijas melhor.)

Não dizemos nada, mas sentimos. Há química no toque de cada lábio. Ninguém se atrapalha no meio da intensidade de cada movimento, e há sorrisos. Ninguém vê, mas há sorrisos. Uma ligeira mordidela que acalma o momento. As línguas desdenhosas a procurarem-se mutuamente. Suavidade e elegância. Um abrir de olhos, aqui e ali. O beijo: nunca igual, nunca parecido, nunca suficiente. Um

-Tens a certeza?

Que vai saindo antes do primeiro beijo. Não da boca. Talvez do olhar. Electricidade estática entre ambos. Um magnetismo imenso. Lábio no lábio. A saliva que se mistura. As mãos no corpo. Um abraço cada vez mais forte. O beijo cada vez mais intenso.
E eu que não me lembro do meu primeiro beijo. Lembro-me de todos os outros. Lembro-me da ciência deste primeiro beijo:

-Larga isso

Um cigarro pensativo que se metia entre nós. Um ébrio louco e uma vontade desmedida - como se o mundo fosse acabar naquele instante. Os lábios lavados em vinho e um vizinho na janela que olhava para nós, como se de uma cena de um filme se tratasse.

- Agora ou nunca

Pensou o ébrio louco. O cigarro era só mais um obstáculo. A vontade era de ferro. Escolheram o  “agora” e curiosamente, o mundo não acabou. O vizinho não aplaudiu e voltou para dentro.
Ali ficámos, de olhos abertos, a olhar um para o outro. Ela entrou em casa e eu segui-lhe os passos. A ciência do beijo na minha cabeça. A subtileza do toque ao início. Uma textura difícil de descrever. Veludo, sobre veludo. O fechar de olhos. O mundo parado. O vizinho que olhava e aplaudia timidamente. Um desejo em cada lábio e a saliva que se ia misturando com a respiração ofegante. Uma vontade de nunca acabar aquele beijo que pareceu tão breve.
A química é o segredo. Tempo e espaço são apenas isso: nada. A ciência de cada beijo está apenas nos seus intervenientes. Há um tango entre os lábios que não dá lugar a narcisismos. Eis a ciência do beijo.

-Beijas bem

(Tu beijas melhor. Enquanto me beijares: tu beijas melhor.)

PedRodrigues

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