quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A balada dos entretantos


Tinha acabado o livro há alguns minutos. O gira-discos teimava em rodar uma balada em torno de si mesmo. Um chá dançante de mulheres em vestidos de gala circulando pelo ar num tom imaginário, recordavam-lhe a velha caixa de música da mãe. Sonhava casar-se com uma bailarina de tiara na cabeça, uma princesa dos palcos do mundo: leve, elegante, rara. Sonhava com ela desde miúdo. Nunca a encontrou. A caixa de música ainda se passeava pela memória, de vez em quando. Tinha-a deitado fora quando a mãe morreu. Não sabia por que razão o teria feito, talvez por ter sentido naquele instante que não havia motivo para continuar a guardar a mãe pela casa. Qual seria o objectivo de guardar os pertences dela, se estes não o podiam abraçar, não o podiam beijar, não lhe podiam perguntar como tinha corrido o dia na faculdade? Naquele momento os objectos não faziam sentido. No entanto, com o passar do tempo, as memórias começaram a esfarelar-se e a perder-se no ar. Nesses momentos sentia falta do calor dos objectos. De sentir a mãe na jarra das gerberas, ou nos quadros da sala de jantar, ou a deslizar pela casa, empurrada pelo som da caixa de música. Sentia-se no meio de um entretanto: algures entre o último suspiro da mãe e a memória que restou dela. Então deitava-se no sofá, fechava os olhos e fazia muita força, como que a puxá-la de onde quer que ela estivesse - nunca a conseguia trazer de volta. Fazia-o sempre que se sentia só. Fazia-o quando a bailarina da caixa de música não aparecia.
A namorada tinha-o deixado. Sentia-se negligenciada enquanto competia ferozmente com a ideia, que ele trazia na cabeça, do protótipo da mulher com quem um dia se iria casar. Não entendia as ausências e os olhares vazios. A princípio julgava estarem relacionadas com a perda da mãe. Confundia a indiferença dele com uma espécie de luto retorcido. Até que essa indiferença se foi tornando cada vez maior, cada vez mais penosa. Demasiado grande para esconder debaixo dos tapetes, ou nos armários. Andava com eles para onde quer que fossem: incrustada nos olhos dele. Vazios. Cheios de uma falsa esperança acutilante. Uma verdade antiga que ela não entendia. E que lhe pedia todos os dias que explicasse. Implorando que lhe dissesse de uma vez por todas que realmente não a amava, não a queria, que era só mais um objecto que se ia ficando pela casa. Pedia-lhe a verdade mesmo sabendo que a verdade é a dor que os olhos escondem. Mesmo sabendo que os olhos dele nada mostravam a não ser um pequeno resto de um brilho antigo. Um brilho de uma tiara a girar em torno do seu próprio eixo. Ela não entendia o destino para o qual ele tinha sido fadado. Um casamento arranjado há anos, desde menino. Não entendia que o problema não era ela ser quem era e sim não ser quem devia ser. Não a queria ver a sofrer, não a queria ver a chorar, porque não se sentia capaz de lhe amparar as lágrimas, ou de a beijar em tom de desculpa - como nunca tinha sido capaz de a beijar enquanto se esforçava para a amar. Os beijos sempre lhe pareceram estranhos, errados, e nunca por culpa dela ou dele, visto que não há beijos maus, há pessoas incompatíveis, só isso. E de facto eles não faziam sentido. Nunca fizeram sentido. De tal forma que ele sempre se tinha sentido no meio de dois momentos. O momento em que beijava a pessoa errada e o momento em que iria beijar a pessoa certa.
Passara quase meia hora desde que se deitara na banheira. Quanto tempo demoraria até ficar sem sangue? Olhava para os pulsos e julgava não ter cortado suficientemente fundo. Olhava para a lâmina, mas faltavam-lhe as forças para a alcançar. Não deveria tardar muito até que acabasse o sofrimento. O gira-discos continuava a girar sobre si uma balada de entretantos. A visão começava a ficar cada vez mais turva. Desejava encontrar a mãe, ou a princesa da caixa de música entre os pingos frescos da neblina. Suspirou para si

-Estou a chegar…

(E abraçou o ar como se abraça quem se ama.)

Quando os paramédicos chegaram, encontraram-no a sorrir. Uma balada no ar e um bilhete no chão:

“A minha vida foi um entretanto entre o dia em que sonhei contigo e o dia em que, finalmente, te conheci.”

PedRodrigues

1 comentário:

  1. É que ao ler-te, as palavras certas desaparecem... :) Maravilhoso :)

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