segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Aos amigos que partem


O que mais me custou foi aquele último abraço, depois de lhe ter dado o livro. Não lhe disse “adeus, até um dia”, disse “adeus, até já”. Não quis juntar uma massa temporal tão grande a um espaço tão pequeno. Aos amigos que partem, desejo que voltem. Foi isso que lhe disse “até já”. Para a semana não lhe vou enviar uma mensagem  a avisar a hora  do jogo de futebol, nem a combinar uma jantarada de amigos - sei, à partida, que ele não vai aparecer. Agora todas as mensagens que trocarmos serão escritas com saudade. Com vontade de quebrar os milhares de quilómetros que nos separam, o fuso-horário que nos troca as voltas. Durante a partida desejamos a chegada, durante a chegada desejamos que o tempo pare, que o mundo se esqueça de nós. Somos obrigados a emigrar. A construir novas casas, novos lares. A necessidade assim o obriga. Deixamos o coração em casa e partimos vazios à espera de algo que nos preencha. Procuramos novas fundações onde nos possamos reinventar. Andamos, caímos, levantamo-nos. É isso que espero dele, do outro lado deste mundo que teima em girar de forma caótica. Desejo que ele se reinvente e prospere. Deste lado, nós vamos tentar fazer o mesmo. Um dia voltaremos a estar todos juntos, noutro lado qualquer, num outro fuso-horário qualquer. Depois abraçamo-nos novamente e dizemos “adeus, até já”. Porque é isso que somos: o regresso, no momento da despedida. Até já.

 

PedRodrigues

2 comentários:

  1. Comentei no instagram, mas tenho que comentar aqui também...
    E este acabou por se tornar num dos meus textos preferidos! Está lindo, Pedro.

    Um "até já" nunca devia demorar mais que um dia!

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  2. essa história já me aconteceu mais vezes do que as que gosto de lembrar :( gostei, vou voltar*

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