sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

C.

É engraçado como algumas coisas começam ao fim do dia. Agora, algum tempo depois, dou por mim a pensar nisso dos começos. Agora, depois, no fim, dou por mim a pensar no ponto de partida: pôr do sol, rio, o céu arroxeado, lindíssimo, o teu rosto meio iluminado, meio protegido pela sombra. Deus, como era óptimo ver-te sorrir. Às vezes a cidade ainda cheira a esse final de tarde; devia ser primavera - tenho a certeza que era primavera: trazia um pulóver cinzento, a camisa por baixo, o calor não abundava (a não ser no teu sorriso). É engraçado como agora me lembro. Acho que, algures, a meio do caminho, alguns pormenores caíram no oblívio da rotina. Foi assim que lhe chamaste: rotina. Uma coisa que se intromete entre duas pessoas e, ao que parece, é como um nevoeiro que se vai adensando até que um não consiga ver o outro. É irónico como a proximidade entre duas pessoas, a partilha constante de momentos, de movimentos, de expressões, se torna numa espécie de distância. Algo que começa como apenas centímetros a separarem dois corpos, - nesse momento, ainda somos o hífen no verbo - até que, quando damos conta, estamos em páginas diferentes, em livros diferentes, em prateleiras diferentes. E o tempo passa e nós olhamos para trás - somos peritos em olhar pelo retrovisor, será que temos medo que o passado nos atropele? Não sei. Sei que vamos escavando da pele ao osso e, por vezes, quando olhamos para cima, estamos no fundo do poço. Escavamo-nos uns nos outros, alguns para procurar abrigo, outros para deixarem espaços vazios. Mas agora isso pouco importa. Quero apenas recordar aquele final de dia em que te conheci: o céu, o sol, o rio, os teus olhos, o teu sorriso de menina. Deus, como ficavas bonita a sorrir. Era primavera. Era, sem dúvida alguma, primavera. 



PedRodrigues

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