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domingo, 30 de setembro de 2018

Poema Inútil

O que entendes tu disto
Pedro Miguel Rodrigues?
Estás a perder cabelo e 
todos sabem
ninguém conquista o mundo sem
ostentar uma farta cabeleira
olhos verdes um
sorriso de capa de revista muito
direito muito capaz de provocar
suspiros.
Ninguém conquista o mundo com
palavras. Se ficas careca estás feito
Ninguém te liga
e, no final, enforcas a tua inutilidade num poema
como este


Pedro Rodrigues



segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Revisitando Nietzsche

A palavra amor
dita do feminino
é diferente da mesma
palavra dita no masculino
é uma palavra com duas faces
com dois corpos
e que quando repetida
com as luzes apagadas
acaba por se tornar 
apenas a mímica
silêncio
um

dois pontos
não coincidem
sem se tornarem
no mesmo ponto



Pedro Rodrigues

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Intimidade

disseram-me que a intimidade
começava quando a roupa caía
como fruta madura sobre os lençóis
gastos por outros corpos
e, na verdade, eu acreditei nessa premissa
enquanto a olhava a tirar os brincos
enormes círculos dourados
sobre a cómoda branca do quarto
o gesto dela todo numa eternidade
lento, mudo, ausente
dizia-me que os brincos a incomodavam
e que não ajudavam em nada nessa partilha da intimidade
retirou a maquilhagem
o batom dos lábios avermelhava em pinceladas drásticas 
o lenço 
(por momentos julguei que queria também limpar os meus beijos)
depois a base
depois tudo o resto que não conheço
quando o vestido caiu no soalho
o meu corpo estremeceu
quando a lingerie foi projectada para um canto
o meu coração disparou
julguei ser nesse momento que começava a intimidade
e depois entrámos juntos nesse lugar onde tudo é sangue
onde tudo é suor, onde tudo são respirações, onde tudo
é orgasmo
no final olhei-a
já com a cabeça poisada na almofada
o sorriso lindíssimo como uma lua perolada
sem segredos  
sem maquilhagem, sem roupa
onde todos os limites podiam ter o nome de pele
onde todos os limites podiam ser depois da pele
percebi
a intimidade começa depois
a intimidade é tudo o que vem depois dessa fronteira


íntimos são aqueles que partilham mais que os seus corpos



Pedro Rodrigues