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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Janeiro

Toca a Intro (Original Mix) dos The XX e o convite é claro: sorri um pouco. Começar costuma ser a tarefa mais ingrata - pelo menos para mim. E daqui a pouco as horas viram dias, e os dias meses, e os meses oceanos - como diria o David Mourão-Ferreira. E quando dermos por nós talvez não haja escapatória possível, talvez nos afoguemos nessa imensidão líquida. Temos aprendido a nadar, como nas aulas de natação da nossa infância. Temos tentado manter a cabeça à tona, com medo que nos falte o ar. Diz-me: tens aproveitado? A pergunta parece tão simples, tão estúpida. Não são essas as mais difíceis de responder? E todos os dias uma vontade à minha volta de regressar ao passado: ao sol, ao calor, aos festivais, às noites de pés no mar, a olhar a imensidão negra, como que esperando por respostas. À minha volta uma necessidade de acelerar o relógio: hoje estou nos vintes, mas adorava já estar nos trintas: quando lá chegar é que estou no ponto. Enquanto isso Roma arde à minha volta. Eu rio-me um pouco. Gosto tanto de rir, por que não gasto mais tempo aqui? E continua à minha volta a contestação: porque hoje está frio, porque os casacos pesam, porque o calor é que é, e todos vivem o Janeiro a chorar pelo Julho e a imaginar os dias de Agosto. Enquanto isso, eu pergunto novamente: tens aproveitado? E entre a pergunta e a resposta o tempo vai passando entre os dedos, como uma areia fina, que teima em não se agarrar. Tudo nos parece escapar. Sonhamos com a liberdade, mas sentimos necessidade de controlar. E choramos os dias que não vivemos como devíamos ter vivido, as viagens que não fizemos, os livros que não lemos, os filmes que não fomos ver ao cinema, os amores que não soubemos guardar. Choramos tudo o que não conseguimos controlar. E na nossa frágil condição, perdemos a oportunidade de perceber que podemos escolher a liberdade, fugir ao status quo. Desligar a televisão, poisar os telemóveis, esquecer os #throwbacks, e aproveitar o sol de Janeiro. Não porque nos faz lembrar Junho, ou Julho, Agosto, mas porque sabe realmente bem o seu calor, independentemente do dia, mês, ou ano. Aproveitar as cores destes dias. Guardar o momento. Porque não há dois minutos iguais, e no final desta música não há replay. 


PedRodrigues

1 comentário:

  1. ...a ler este belo texto.
    Horas a passar, minutos a voar...insônia a chegar,vontade de café...o piano a tocar.
    Coincidências no ar...
    The XX...Angel ou Intro...
    Luar ou Sol de Janeiro...
    Saudades do que não vivemos, do que não tivemos coragem...
    A começar...sempre.
    Mas o céu, se tu olhares...é e sempre será o mesmo.
    Acho que o sono está a chegar.
    Boa madrugada.
    Bons sentimentos & sonhos.

    MJ

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