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terça-feira, 20 de maio de 2014

Uma coisa que escrevi há algum tempo

São as paragens que nos lixam. Se o nosso coração parar de bater, morremos; se pararmos a meio de um
A...
(Pausa para pensar se devemos dizer, se realmente é o melhor caminho a seguir, se não devemos fugir a sete pés e esquecer aquilo tudo)
...mo-te
Corremos o risco de não ser levados a sério; se pararmos no sítio errado, à hora errada, podemos ser atropelados – por um carro, ou um camião, ou uma mota, ou até mesmo a vida. Parar é morrer - mesmo. São as paragens que nos lixam. É esta mania de travar a todo o custo que nos racha por dentro. É esta sobrelotação de pensamentos e sentimentos que nos deixa à beira do precipício. Parar para escutar o mundo. Parar para olhar todas as paisagens que ficarão guardadas em nós. Parar para sentir o ar a entrar lentamente nos pulmões. Parar por um segundo. Parar oito horas para dormir.
Vivemos cerca de metade das nossas vidas parados.
Parar é morrer. Passamos metade da nossa vida mortos. Morremos lentamente, mas temos sede de vida. Temos desejo de aventura, mas paramos com medo do desconhecido. Paramos para pensar no próximo passo – fazemos bem. Pensa primeiro, age depois. Age primeiro, pensa depois. As possibilidades de errares são imensas.
Já pensaste nelas?
Não pares ao atravessar a rua. Atravessa sem olhar. Não pares.
Não parei.
Foste atropelado. Estúpido. Por que razão não paraste? Para. Avança. Tantas possibilidades. Tantos erros. Beija-a. Diz-lhe que a amas.
E depois?
Deixa-te levar. Perde-te nela. Perde-te com ela. A vida é uma chama a arder, não tenhas medo de te queimar. O amor é uma chama a arder, não tenhas medo te queimar. Não deixes que a chama se apague. Não tenhas medo. Estúpido. Palerma. Não tenhas medo. Procura-a até ao fim do mundo.
E se ela continuar a fugir?
Continua a procurá-la. Amas, não amas?
Amo!
Não desistas. Não pares. Não te percas em concepções ptolemaicas da realidade. Vive para ela. Não há horror maior que o de ficar parado. Age. Vai ao fim do mundo e volta. Conta-lhe as tuas histórias. Vês como ela sorri com as tuas histórias? É amor. Não tenhas medo: expõe-te ao mundo. Sê a cobaia dessa doença: amor. Amar. Eu amo-te. Tu amas-me. Eu amo-te de volta e tu amas-me de volta. Eu sei que me repito. Eu sei que já disse isto, mas preciso de voltar a dizer. Não me permito ficar parado. Não posso ficar parado. O meu coração não pode parar
Se ele parar, o que restará de mim para te amar?


PedRodrigues

Seremos todos passado, um dia

Seremos todos passado
Um dia
E o nosso maior medo
É o de sermos esquecidos
Queremos que nos lembrem
Que não nos deixem partir
A ideia de nós
Deve ser maior que nós
Não recordem a nossa pequenez
Um dia
Quando formos passado
Que sejamos maiores
Melhores
Que o nosso
Presente

PedRodrigues

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A conversa

Quando a conversa termina fica o vazio. Um silêncio espesso que consome o pouco que resta de nós. Há lágrimas. Consigo ver as lágrimas. Ouvi o tremor na voz dela: havia lágrimas. Antes de a conversa terminar o vazio não existia – o vazio era o futuro, uma hipótese sólida do futuro. Antes de a conversa terminar houve gritos e palavras arremessadas como objectos. Nada magoa tanto como as palavras que arremessamos como objectos. O coração acelera de adrenalina. Os pensamentos fragmentam-se e por vezes não fazem qualquer sentido. Disparamos palavras; apontamos falhas, defeitos, erros; circulamos à volta dos mesmos temas, das mesmas acusações. Antes de a conversa terminar não há vazio, há caos. No meio desse caos nada se cria, nada se constrói: é a anarquia dos sentimentos. Tenho vontade de dizer que te amo, - porque, de facto, amo – mas não digo. Tenho vontade de te abraçar e de te dizer para parares e me abraçares, – porque, de facto, é o que quero – mas não digo. Tenho vontade de ti, como tu tens vontade de mim, mas deixo-me ficar em modo de combate, pronto a ripostar as tuas investidas. Tu gritas. Guerreias comigo como se fosse o inimigo e precisasse de ser vencido – nisso, estamos em sintonia. Não sou o teu inimigo, nem tu és a minha inimiga. Fomos apanhados pela vida e nem sempre a vida traz coisas boas consigo. Mas não culpemos apenas a vida e as inevitabilidades da vida. Culpemo-nos a nós. Em algum momento acabámos por errar. Eu errei, tu erraste. Fizemos merda. Talvez fosse inevitável, ou talvez fosse evitável: há sempre dois lados na mesma moeda. Gostamos de assumir o inevitável como a resposta certa, mas bem lá no fundo sabemos que não é. Podíamos ter evitado. Como? Não sei. Na verdade não sei. Não sabemos. Podíamos, de alguma forma mais astuta e menos belicosa, ter evitado todo este banho de sangue. Os erros, tal como os obstáculos, existem para serem, primeiramente, evitados e, se for o caso, – se for impossível evitar esses erros, esses obstáculos – existem para serem superados. Durante a conversa usamos os erros e os obstáculos da pior forma possível: como armas de arremesso. Atiramo-los ao acaso na esperança que magoem, que marquem. Atiramo-los para mostrarmos que estamos certos. Não estamos. Calamo-nos. Recuperamos o fôlego. Tentamos meter a cabeça no lugar – apesar de tudo; apesar de todas as feridas e mutilações. No silêncio há lágrimas. As lágrimas são o pó que sobrou dessa luta. Então acalmamo-nos. Dizemos finalmente o que é realmente importante: eu amo-te e tu amas-me. No entanto, há ainda problemas por resolver, mudanças que precisam de acontecer para que tudo acabe da melhor forma possível. Eu quero estar lá contigo e tu queres estar lá comigo, quando toda esta tempestade passar. Temos a certeza disso. É com essa certeza que nos comprometemos um ao outro. A certeza da mudança é incerta, mas é necessária. Eu prometo mudar, preciso de mudar: por ti e para ti. Porque mereces o melhor de mim, não apenas a possibilidade do melhor de mim. Até a conversa terminar há caos: nada se cria, nada se constrói. Durante a conversa eu amo-te. Depois de a conversa terminar, no vazio, eu ainda te amo. E choro-te e escrevo-te: porque mesmo neste vazio é apenas o teu rosto - com, ou sem lágrimas - que consigo encontrar.


PedRodrigues