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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Textos da nova cidade


Hoje senti necessidade de te escrever. Agora que não estás e eu me mudei para outra cidade, com cores que já não são as nossas. Aqui não temos memórias dos nossos dias juntos. Começo um novo referencial, com novas oportunidades, novos objectivos. Tanta coisa. Tanta coisa. No entanto, vieste comigo na bagagem. Escondida entre a escova de dentes e o perfume que me deste. Vieste comigo e não estás aqui. Não faz sentido. Nenhum. Mas raramente as coisas fazem sentido. Às vezes construímos silêncios que nos afastam, como se fossem uma distância muito grande; e, no fundo, o que queremos é apenas um abraço: a necessidade de uma presença embrulhada em nós. Esperneamos, esmurramos e só queremos uma segurança, algo a que nos possamos agarrar. Olho o rio da janela, ao fundo, luzes que rompem o vazio da noite, e tudo o que queria era ter-te aqui. A certeza de uma conversa no mesmo metro quadrado, no mesmo espaço. Se possível as nossas mãos dadas, ou um olhar. Era isso que queria. Não estou a pedir muito, ou estou?

 

 

PedRodrigues

domingo, 6 de setembro de 2015

No recreio da escola


Ainda penso no beijo
que te não dei
naquele dia
no recreio da escola.
Na altura só queria
jogar ao berlinde, ou
futebol no campo verde
Não ligava a essas coisas
das meninas, ou do amor.
Tu só querias um beijinho
como os que vias
nas novelas das sete
E eu queria ser melhor
que o Maradona
ou o melhor jogador
de berlinde do recreio.
Mas um dia por capricho,
ou outra coisa qualquer
decidi pedir-te um beijo
Tu ignoraste-me
Ainda me lembro
das dores de barriga
por me teres rejeitado.

 
O amor era uma coisa
muito estranha,
naquele tempo.
Ainda é.

 

PedRodrigues

 

 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Último texto de Agosto


Preferia que me tivessem dito que os monstros debaixo da minha cama, afinal, existem. O céu também pode ser pintado de vermelho e o mar, ao fim e ao cabo, não tem cor. Os baralhos não têm apenas cinquenta e duas cartas. E os arco-íris nem sempre se entendem nas sete cores.
Preferia que me tivesses dito “boa noite, até amanhã”, em vez de “adeus, até um dia”. Ou me tivesses beijado na testa com carinho, em vez de na boca com desprezo. Se a vida fosse fácil, as lágrimas não seriam choradas para acalmar a dor. Nada nos é dado de mão beijada. E nem sempre a sorte conspira a nosso favor. A luz nem sempre é imensa, mas até a estrela mais pequena pode iluminar uma noite escura.
Preferia que me tivessem alertado sobre os monstros vestidos de gente que caminham entre nós. Tudo seria mais fácil. O medo da solidão é imenso, mas indiferença no teu olhar sufoca-me. És um monstro vestido de homem: ficas, mas nunca estás. Consomes-me devagar, como um veneno dado em pequenas doses. Nem sempre amamos quem nos faz bem, é certo e sabido. E o céu, no fundo, também pode ser pintado de vermelho. O alerta está dado.

 

PedRodrigues