No
dia em que meti o meu coração à venda percebi que ele vale pouco ou quase nada.
Disseram-me que os corações partidos não valem tanto como os outros.
-Quem
quer uma coisa partida?
Mostraram-me as modas atuais: os corações de
pedra, os corações de ouro, os corações à prova de bala, e toda uma infinidade
de derivados do coração que eu desconhecia totalmente. Expliquei-lhes que o meu
não era de ferro, que não era de ouro, que não era à prova de bala e que
sangrava como os outros. Riram-se de mim.
-Quem
quer uma coisa estragada?
A
verdade é que ninguém quer um coração estragado e eu não quero o meu coração.
Não o quero. Aleija-me, magoa-me, mói-me, irrita-me. Estou farto do meu
coração. Juro que estou farto. Parece que não aprende. Aliás, não aprende
mesmo. Bate por tudo e por nada e às vezes acelera sem razão aparente. Acelera,
acelera, acelera… Até ao ponto em que fatalmente acaba por se despenhar. Depois
estilhaça-se por todo o lado: um bocado ali, outro bocado acolá e eu a apanhar
os cacos. A colar tudo de novo. A colar tudo como se desta vez fosse para
sempre. Nunca é.
Um
dia destes falaram-me de alguém que plantava corações.
-Ninguém
planta corações
Todos
plantamos corações, mas nem sempre nascem os amores que queremos. Há quem os
plante em conjunto e os deixe crescer em conjunto e durante esse processo os
corações amam-se. Não há nada mais belo que um coração cheio de amor. Não há
nada tão doloroso como um coração partido por amor. Às vezes esquecemo-nos que
para dar o nosso coração, temos de receber um coração em troca. Nem todos
estamos preparados para ver as coisas como elas são. Mas o mundo está aí, está
à vista de todos e mesmo assim teimamos em olhar para ele e não o ver. Os
nossos corações são tão cegos como os nossos olhos. Gostamos de acreditar no
amor cego. E que amor será mais cego que o amor das coisas belas? O amor que é
Amor vem do coração, mesmo dos corações que estão estragados, despedaçados,
partidos, ou estilhaçados. O amor vem maior desses corações.
-Quem
quer um coração desfeito?
Ninguém
quer um coração desfeito, mas a verdade é que o mundo é feito de corações
desfeitos. Até os corações de ferro um dia acabam por enferrujar. Um dia o meu
coração partido será um coração chagado e nesse dia estarei disposto a deixá-lo
acelerar de novo. Hoje estou fulo, irritado, mal-humorado. De maneira que hoje
apetece-me vender o meu coração. Ele até pode não valer muito, pode até não
valer nada, pode não ser de ferro, ou de ouro, ou outra coisa qualquer, mas não
o vendo ao desbarato. O nosso desejo de amor é insaciável, mas nem por sombras
ofereço (novamente) o meu coração.