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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O dia em que quis vender o meu coração


No dia em que meti o meu coração à venda percebi que ele vale pouco ou quase nada. Disseram-me que os corações partidos não valem tanto como os outros.

-Quem quer uma coisa partida?

 Mostraram-me as modas atuais: os corações de pedra, os corações de ouro, os corações à prova de bala, e toda uma infinidade de derivados do coração que eu desconhecia totalmente. Expliquei-lhes que o meu não era de ferro, que não era de ouro, que não era à prova de bala e que sangrava como os outros. Riram-se de mim.

-Quem quer uma coisa estragada?

A verdade é que ninguém quer um coração estragado e eu não quero o meu coração. Não o quero. Aleija-me, magoa-me, mói-me, irrita-me. Estou farto do meu coração. Juro que estou farto. Parece que não aprende. Aliás, não aprende mesmo. Bate por tudo e por nada e às vezes acelera sem razão aparente. Acelera, acelera, acelera… Até ao ponto em que fatalmente acaba por se despenhar. Depois estilhaça-se por todo o lado: um bocado ali, outro bocado acolá e eu a apanhar os cacos. A colar tudo de novo. A colar tudo como se desta vez fosse para sempre. Nunca é.
Um dia destes falaram-me de alguém que plantava corações.

-Ninguém planta corações

Todos plantamos corações, mas nem sempre nascem os amores que queremos. Há quem os plante em conjunto e os deixe crescer em conjunto e durante esse processo os corações amam-se. Não há nada mais belo que um coração cheio de amor. Não há nada tão doloroso como um coração partido por amor. Às vezes esquecemo-nos que para dar o nosso coração, temos de receber um coração em troca. Nem todos estamos preparados para ver as coisas como elas são. Mas o mundo está aí, está à vista de todos e mesmo assim teimamos em olhar para ele e não o ver. Os nossos corações são tão cegos como os nossos olhos. Gostamos de acreditar no amor cego. E que amor será mais cego que o amor das coisas belas? O amor que é Amor vem do coração, mesmo dos corações que estão estragados, despedaçados, partidos, ou estilhaçados. O amor vem maior desses corações.

-Quem quer um coração desfeito?

Ninguém quer um coração desfeito, mas a verdade é que o mundo é feito de corações desfeitos. Até os corações de ferro um dia acabam por enferrujar. Um dia o meu coração partido será um coração chagado e nesse dia estarei disposto a deixá-lo acelerar de novo. Hoje estou fulo, irritado, mal-humorado. De maneira que hoje apetece-me vender o meu coração. Ele até pode não valer muito, pode até não valer nada, pode não ser de ferro, ou de ouro, ou outra coisa qualquer, mas não o vendo ao desbarato. O nosso desejo de amor é insaciável, mas nem por sombras ofereço (novamente) o meu coração.

PedRodrigues

(Crónica da edição de Novembro da revista Algarve Mais)

sábado, 22 de setembro de 2012

O amor que respiramos


Amamo-nos à distância do ar que respiramos. Aqui em casa, amamo-nos à distância do ar que respiramos. Se nos imaginar de olhos fechados sinto-nos no ar. Cada um de nós tem o seu espaço. Cada um de nós ocupa esse espaço como se fosse seu – e é. Na verdade estamos distantes, mas continuamos juntos. Às vezes não nos falamos durante a eternidade dos minutos, mas estamos juntos e estamos felizes quando estamos juntos. Às vezes somos quatro, outras vezes somos três, outras vezes somos dois e às vezes estamos sozinhos por aí. Nunca nos separamos totalmente porque a distância não é inversamente proporcional ao amor. Amamo-nos sempre. Amamo-nos à distância do ar que respiramos: essa é a grande verdade. Nem tudo na vida nos corre bem. Nem sempre o vento sopra a favor. Nem sempre somos quatro aqui por casa. A verdade é que somos parte do mundo, mas o mundo acontece à nossa volta. Somos um núcleo. Somos um núcleo compacto. O mundo teima em acontecer e nós teimamos em ficar unidos. Unimo-nos mesmo quando somos apenas um. Nada nos separa, porque nada nos consegue separar. Um dia fomos cinco. Nesse dia éramos mais felizes, mas esse dia acabou por passar. Hoje somos quatro mais um. Não estamos os cinco, mas continuamos a respirar do amor dos cinco. E é isso que nos torna tão especiais, é isso que nos torna tão completos: amamo-nos à distância do ar que respiramos. Enquanto um de nós respirar, nós seremos um núcleo compacto de amor que não se esgota. Enquanto um respirar, viveremos todos, seremos todos aquilo que somos. Não acredito na morte pela distância, nem na rotura pela solidão. Enquanto respirarmos amor não vivemos sozinhos. Tenho pena daqueles que não entendem a fibra do amor. Tenho pena dos que vivem dos quases e de todos os outros que têm dificuldade em perceber a receita do amor. Nem tudo o que brilha é ouro. Nem tudo o que aparenta ser amor, é amor. Não nos contentemos com metades. Não nos deixemos enganar pela irracionalidade dos impulsos que nos movem. Agradeço todos os dias o meu lugar neste núcleo. O amor que respiramos é inesgotável. O amor que respiramos faz-nos felizes. Um dia fomos cinco, mas esse dia passou. Hoje somos quatro mais um. Não estamos os cinco sentados pela sala, mas continuamos a ser cinco no interior de cada um.

PedRodrigues

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Crónica pequenina sobre o sol egoísta


Entrei no quarto com medo de te ver. É verdade. Para quê mentir? Entrei devagar, espreitei primeiro, olhei bem, tremi um bocado, mas a verdade é que não estavas. Ou por outra: estavas, mas permaneceste escondida. Desfiz o malote e arrumei a roupa no armário. Tu continuavas escondida. Olhei em volta, suspirei uma vez, suspirei novamente e tu permaneceste escondida. Olhei para a parede, mesmo por cima dos meus livros e lá estavas tu: escondida nos papelinhos colados com post-its . Lembrei-me de ti. Lembrei-me de ti porque o sol esgueirava-se pelos buracos da persiana e despenhava-se nos teus papelinhos. Lembrei-me de ti porque um dia foste o meu sol. Foste o sol do meu sol e brilhavas muito. Brilhavas tanto, tanto. Continuas a brilhar, mas agora o meu quarto está escuro. Apagaste-te aqui e eu não sei se consigo viver nesta escuridão. Um dia pedi-te que brilhasses para mim. Um dia brilhaste para mim. Mas a verdade é que me cansei de girar na tua órbita, de me deixar à deriva enquanto me vias passar do alto do teu pedestal celeste. Um dia acreditei que o sol podia girar à volta de alguém. Estupidamente acreditei que o sol podia girar à volta de alguém. Continuo a acreditar que o impossível é possível porque acredito que sou feito de sonhos. Enquanto durmo tu estás comigo. Enquanto durmo permaneces escondida atrás das almofadas. Depois acordo de noite: uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes, cinco vezes. Nesse momento tu já não estás. Permaneces escondida nos papelinhos, permaneces nas caixas das sapatilhas, permaneces enraizada na roupa que deixaste por aqui. Permaneces. E enquanto eu conseguir sentir o teu aroma a kiwi e coco tu vais aparecendo pelas frechas das persianas. A minha vida continua estranha sem ti. O teu silêncio continua confuso na minha cabeça. Onde quer que estejas, com quem quer que estejas, por favor deixa de brilhar. Um dia foste o meu sol e não estou preparado para te partilhar assim. Um dia foste o meu sol e estupidamente esqueci-me que o sol não gira à volta de ninguém. Por favor não brilhes. Se levantar a persiana és bem capaz de me abraçar. E depois, como serei capaz de me esquecer de ti?

PedRodrigues